Mulheres
Eva, a Primeira de Todas
O significado de seu nome é: "Tem vida". Progenitora da humanidade, foi mulher do primeiro homem. Eva, a primeira mulher, é uma figura central da história da redenção do homem, tanto durante seu tempo de vida como além dele. Seu significado pode ser visto nos vários desígnios que lhe foram destinados e as circunstâncias que os cercaram. Ela é a primeira mulher mencionada como parte da noção corporativa de “homem”:
“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem: À imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.” ( Gênesis 1. 26-28 )
“Homem e mulher os criou; e os abençoou e chamou o seu nome Adão, no dia em que foram criados.” ( Gênesis 5.2 )
Isso significa que Eva também compartilhava a imagem de Deus, a fonte de toda a dignidade humana que nos diferencia de todo o restante do reino animal. O homem e a mulher são os únicos a serem criados segundo a imagem semelhança do Criador. Os anjos e os animais não são assim. Nesse sentido, a identidade da mulher derivou diretamente de Deus:
“E da costela que o SENHOR Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada.”( Gênesis 2. 22-23 )
Eva foi criada, a partir de Adão e formada com o propósito de ser uma auxiliadora que lhe correspondesse:
“E disse o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma adjutora idônea para ele.”( Gênesis 2. 18 )
Nesse sentido, sua identidade era derivativa do primeiro homem. O termo traduzido como “adjutora”, não tem em si mesmo a idéia de subordinação. É um vocábulo usado até mesmo com relação a Deus em outros textos. Esse caráter duplo da natureza derivativa de Eva ( imagem de Deus tirada do homem ) proporciona a base para que todas as mulheres possam entender a si mesmas, desde que Eva foi a progenitora do seu gênero. Sua função com relação a Adão, entretanto, é a base do entendimento sobre o gênero masculino. A intenção de Deus na criação da mulher era que complementasse Adão, o que significa que havia algo de incompleto no primeiro homem sem ela. Em vez de ser uma serva, compartilharia com ele uma reciprocidade baseada tanto nas similaridades como nas desigualdades. Eva era feita à imagem de Deus; portanto, co-recipiente do mandato cultural para encher a terra e dominá-la, por meio da multiplicação dessa imagem:
“E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.” ( Gênesis 1. 28 )
A ausência da mulher na criação, na verdade, causou a declaração de Deus de que algo não estava bom ( Gênesis 2.18 ). Quando foi apresentada ao homem, este cantou o primeiro hino encontrado nas Escrituras, a fim de exaltá-la e chamá-la de mulher ( Gênesis 2.23 ). Adão viu nela um espelho idêntico, embora oposto: Percebeu que era totalmente feita à imagem de Deus e ele não tinha nele, o que somente ela podia lhe proporcionar. Nesse aspecto, a identidade de Adão derivava de Eva.
A caracterização louvável que Eva recebeu de seu marido proporcionou o pano de fundo necessário para sua tentação pela serpente. A leitura de Gênesis 3 sem ter este contexto em mente, produziria uma visão distorcida da mulher. A decisão de satanás de tentar Eva não parece, de maneira alguma, refletir algo que seja inerente à natureza feminina, a despeito da interpretação tradicional. Se houve qualquer base racional por parte da serpente, seria em seus métodos subversivos. Havia uma forte implicação de hierarquia no relacionamento entre o homem e a mulher, e satanás, provavelmente, escolheu tentar a mulher a fim de subverter esta estrutura.
Ao ceder a tentação de satanás, a mulher tomou sobre si o papel de determinar o bem e o mal. A autonomia humana na esfera complementar da verdade e da moral iniciou-se a partir dali. Num esforço para justificar, Eva conseguiu a participação de Adão na rebelião. O retrato da mulher aqui, como suscetível à tentação, estabelece uma dimensão de seu caráter na Bíblia; mas essa imagem deve ser vista dentro do contexto de sua caracterização total.
É digno de nota, nesse ponto, que Adão é visto como praticante de uma falta primária no ato da desobediência. Ele não só foi colocado como cabeça sobre toda a criação, mas também era sua tarefa específica guardar o jardim:
“E tomou o SENHOR Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar.” ( Gênesis 2.15 )
O verbo hebraico usado aqui, além do sentido de conversar, pode conotar uma proposta militar de “ficar de guarda”, oque é o caso acerca do que está escrito no próximo capítulo de Gênesis:
“E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida.” ( Gênesis 3. 24 )
De usarmos como pano de fundo os soldados do templo no Antigo Oriente Médio, Adão deveria guardar o Jardim Santo de Deus na presença do mal ou de intrusos impuros. A presença satânica no Éden, personificada na serpente, foi uma indicação direta do fracasso do homem nesse aspecto. Esse entendimento, corrige a noção equivocada de Eva ser mais fraca moralmente, e de que ela própria era uma tentadora.
Eva compartilhou totalmente com Adão, a vergonha dessa rebelião, e sentiu com ele a quebra do que antes fora a cobertura suficiente deles, ou seja, a glória, o Espírito e a imagem de Deus:
“Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.” ( Gênesis 3.7 )
Deus colocou sobre ela a maldição relacionada à gravidez e o parto, os quais eram talhados para sua identidade e função:
E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará. ( Gênesis 3. 16 )
Essa maldição, entretanto, não é totalmente merecida. Certamente as dores do parto serviriam para lembrar a mulher, e seus descendentes do sexo feminino, sobre a rebelião daquele dia. Também a lembraria do perigo que seria associado ao nascimento dos filhos. Na maldição, porém, podemos ver a bênção de Deus, pois a habilidade da mulher em conceber foi preservada. Eva continuaria a ser uma geradora de vida, a despeito da morte, ser o castigo para a rebelião dela e do homem.
Como conseqüência de seu pecado, Eva teria seu desejo natural substituído pelo de seu marido ( Gn 3. 16b ). Alguns comentaristas encontram aqui a base para a liderança masculina e a submissão feminina, ao atribuir esse arranjo exclusivamente à queda. Não é, contudo, a origem do desejo que se vê aqui, pois com certeza, Eva desejava seu marido antes do pecado. Parece que sua vontade se tornaria desproporcional ou distorcida. Assim, seria estabelecida por meio do domínio do homem sobre ela. Isso não quer dizer que não havia hierarquia conjunta antes desse momento, mas sim, que ela seria modificada de alguma maneira.
A preservação de Eva como fonte de vida, entretanto, não é limitada apenas à esfera biológica. Na maldição sobre a serpente, Deus incluiu a promessa da redenção humana:
“E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” ( Gênesis 3. 15 )
Essa passagem geralmente é chamada de “O primeiro Evangelho”, porque antecipou a derrota final de satanás, a qual Cristo, como a semente da mulher, conquistaria. Fica evidente que Adão entendeu a esperança abençoada da esposa, pela resposta que deu à promessa de Deus, quando chamou Eva, porque era a mãe de todos os viventes ( Gênesis 3.20 ). Essa declaração reflete entre o nome e a palavra hebraica hayah, que significa viver. Não se sabe ao certo se estão ligados etimologicamente, mas no mínimo Adão fazia um jogo de palavras.
A última caracterização de Eva, ocorre em sua declaração acerca do nascimento de Caim; “Alcancei do Senhor um homem.” ( Gênesis 4.1 ). Essas palavras revelam a consciência que tinha de Deus, para gerar a vida. Foi a profissão de fé pessoal de Eva, a qual expressou uma atitude fundamental de alguém cuja esperança estava na semente prometida. Eva não é mais mencionada explicitamente no Velho Testamento. Como veremos posteriormente no Novo Testamento, entretanto, ela serve como um personagem-modelo em episódios subseqüentes. Eva é o protótipo da mulher que busca sua libertação por meio da geração de filhos. É a mãe das dores do parto. Os filhos que nascem desse modelo, é visto como o resultado direto da intervenção divina em favor da mãe. Visto desta maneira, Sara, Rebeca, Raquel, Ana e Isabel ( que estão neste livro ), seguem o padrão de Eva, embora ela ( Eva ) própria não tenha experimentado a esterilidade. Aquela sobre quem o Senhor demonstra seu favor experimentará a alegria de Eva:
“Canta alegremente, ó estéril, que não deste à luz; rompe em cântico, e exclama com alegria, tu que não tiveste dores de parto; porque mais são os filhos da mulher solitária, do que os filhos da casada, diz o SENHOR.” ( Isaías 54.1 )
O Novo Testamento faz duas referências explícitas a Eva. Vamos analisar a primeira:
“Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo.” ( II Coríntios 11. 3 )
Paulo citou a maneira de como ela foi enganada pela serpente, como uma advertência do que um falso mestre poderia fazer na Igreja em Corinto. O ponto da analogia é a astúcia da serpente, comparada com a falsa sabedoria dos que pregavam um evangelho diferente daquele que o apóstolo anunciou. Paulo foi bem enfático quanto a isso, pois ele esteve sempre em comunhão com Jesus. Não pode haver outro ensino, além do Evangelho verdadeiro de Jesus. Comprove:
“Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho; O qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o Evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja maldito.” ( Gálatas 1. 6-8 )
“Pediu Jesus: Pai, santifica teus filhos na tua verdade; a tua palavra é única a verdade.” ( João 17.17 )
Há uma analogia no casamento de Cristo e a Igreja:
“Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; porque vos tenho preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo.” ( II Coríntios 11.2 ) O versículo 3, se tomado como uma extensão dessa analogia, lança mais luz sobre o episódio da tentação no Éden. Se o interesse da Igreja na cidade de Corinto ( referente às cartas de Paulo a I e II Coríntios, Novo Testamento ), por um falso evangelho, é análoga à infidelidade conjugal. Desta forma, a tentação de Eva pode ser vista dessa maneira. Isso estaria de acordo com uma analogia usada com muita freqüência no Velho Testamento, a qual descreve a idolatria como uma infidelidade conjugal para com Deus. Para comprovar isso, leia Ezequiel cap. 16 e o livro de Oséias no Velho testamento. Efésios 5. 22-23, embora não mencione os nomes de Eva ou de Adão, cita Gênesis 2. 23-24:
“Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo Ele próprio o salvador do corpo.” ( Efésios 5. 22,23 )
“E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada. Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne.” ( Gênesis 2. 23-24 )
Este é o primeiro lugar na Bíblia, onde a analogia é feita entre Cristo e a Igreja e o casamento. Assim, como o propósito de Jesus é santificar a Igreja, o dever do marido para com a esposa é separá-la como objeto exclusivo de seu amor.A outra referência explícita a Eva no Novo Testamento, é encontrada nesta passagem:
“Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva.” ( I Timóteo 2.13 )
Nos conselhos que Paulo dá ao seu filho na fé sobre o cuidado com a Igreja em Éfeso, deu instruções particulares para cada gênero de pessoas. O apóstolo exortou a mulher a manter uma postura submissa diante do marido, em duas bases: A ordem da criação e a da tentação. Adão criado primeiro; Eva, enganada primeiro. Alguns comentaristas declaram que o que Paulo disse não é mais pertinente, de acordo com pelo menos um dos seguintes princípios, ou mesmo com todos eles: 1- Vivemos numa época em que a redenção já resolveu o problema da queda; 2- As palavras de Paulo foram dirigidas a um problema particular em Éfeso; 3- ele refletia um chauvinismo ( Patriotismo exagerado, quase desprezo aos estrangeiros ) comum entre os rabinos, com relação a Eva; 4- O apóstolo falava com base no entendimento cultural comum daquela época.
Outros destacam que a ordem da criação é a base para o entendimento de Paulo dos papéis no relacionamento conjugal, e não a queda; essa hierarquia deve permanecer no mínimo até a consumação deste mundo, quando a redenção será completa.
O aspecto mais relevante desta passagem de I Timóteo 2, para o entendimento de Eva, é visto no versículo 15:
“Salvar-se-á, porém, dando à luz filhos, se permanecer com modéstia na fé, no amor e na santificação.” ( I Timóteo 2.15 )
O apelo de Paulo é concluído com a esperança de que a mulher se salvará dando à luz filhos. Embora obviamente essa não seja uma garantia automática de que a reprodução biológica resultará em salvação espiritual, é uma reflexão sobre a grande promessa dada a Eva: Que ela era a mãe de todos os viventes.
Apesar de Eva não ser mencionada diretamente como a mãe da semente que destruiria a serpente, provavelmente ela é o modelo em outros contextos do Novo Testamento. Maria, a mãe de Jesus, é o recipiente da revelação divina de que conceberia um filho, o qual seria o foco central da redenção e lutaria contra as forças do mal. Em resumo, a menção de Eva é muito limitada na Bíblia; entretanto, a atenção cuidadosa dos meios de caracterização revela muito sobre a fonte e a natureza de tal identidade. Além da menção explícita, ela pode proporcionar o pano de fundo para o entendimento para outros personagens bíblicos, bem como de alguns aspectos da obra redentora de Cristo.
Livro: Livro das mulheres - Pr. José Luiz Varcas

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